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Mostrando postagens de 2006
O fruto do furto
é moral

na intimidade
não há vulgaridade.


o furto do fruto
nasceu mortal

na intimidade
não há indescência.


***


ML, outubro 2006

_sustância [poema?]

relógios relógicos
Substância do tempo
instância do instante
prismas numéricos

ponteiros pesados
apontam, persistem
perfuram a massa
insustentável
da vida passando
entrando
saindo
andando

sombra solitária
navegando terra adentro
procurando um refúgio

lunar


dígitos despidos
repetem
repetem
repetem
concordam contínuos

relógios, relógicos
parados
não mudam o tempo
a nos comer


***

Explicação de Contos Noturnos

A idéia dos Contos Noturnos é bem simples: contar histórias curtas que se envolvem, se amarram ao longo das diversas tramas. Não há paralelismos nas histórias, tentei seguir uma certa linearidade temporal, mas me permite sair desse gesso sem o menor sentimento de culpa. Portanto se as histórias não forem lidas na seqüência (que eu, extremamente inteligente, publiquei ao contrário), talvez pareçam cenas desconexas, o que não deixam de ser, afinal de contas. No Iceberg de Hemingway vive tudo aquilo que não vemos além da cena, mas que sabemos estar ali. É isso.

ML

Agosto de 2006

_contos noturnos [10/10]

10. Alcagüete


As paredes das casas se pintavam alternadamente de vermelho e branco. As caras dos moradores que se aboletaram nas janelas para ver o espetáculo também se alternavam coloridamente entre o sorriso e o espanto. Algumas pessoas já saiam de suas casas e se aglomeravam perto das viaturas paradas em frente à casa de Maurício sem mesmo sair de dentro de seus roupões e seus chinelos de meias quentes e alvas. Àquela hora da noite, em um bairro tão nobre, poucos não acordariam para ver o que poderia estar acontecendo.

Sr. Pedro do Cáucaso, o sr. é acusado de latrocínio e está preso. Tem direito a um advogado. Se não puder pagar pelos serviços o Estado...

A ladainha do policial era dita para a câmera de TV, não para o preso. Os jornais – sensacionalistas todos – não perderiam a chance de botar no ar a prisão do primo do Deputa Maurício de Lima dentro de sua casa, acusado de roubo seguido de homicídio. Pior, a situação da prisão era terminantemente pífia: um dos convidados do deputado,…

_contos noturnos [9/10]

9. Em casa

Sem nenhum abraço eles se abraçam. São primos. Coisa melhor existe em família. Mas veja, o clima pesou. Embaraço. Embaraço total.

E aí.

E aí.

Era para ser um churrasco em família. Na verdade foi. Um belo churrasco. Muitos amigos e poucos familiares. Coisas da vida. Ele entra para pegar uma cerveja (todas estavam lá fora, no frízer – freezer, porra –, todas). Vai além da cozinha. Há vozes lá. Baixas e envergonhadas. Todos assistem à TV sem pisar no tapete. É a família. Tapete grande e sóbrio. Se não saiu de uma revista de decoração no mínimo é de bom gosto. Voltar? Todos parecem encantados ali. Lá fora há risos que chamam para mais um gole. Conversas que terminam em risos. Saiu.

Às vezes queremos nos esconder. Às vezes não somos percebidos. Coisas que acontecem.

Maurício entrou na conzinha ainda rindo. Pedro folheava um jornal velho que estava sobre o balcão. Ele fingia ler o jornal para poder observar o primo de canto-de-olho. Maurício:

Eu vi isso. Foi camarada seu que fez o servi…

_contos noturnos [8/10]

8. Memorial


Porra, aquilo é bom demais. Sempre comi muito daquilo. Minha mãe dá um nome que eu acho feio, mas é esse o nome. Eu comia com meu primo quando era pequeno. Antes de ele se dar bem. Agora a gente se vê pouco, ele virou granfa, se mete com política e tudo. Mas vem da mesma manjedoura que eu: era pobre de marre. Lá em Serra Bonita a gente aprontava todas. E mais algumas. Um dia a Telesp colocou uma torre de celular lá. Dessas de retransmissão. A gente ia nadar na mesma lagoa todos os verões, e no caminho a gente passava pela torre. Foi a primeira caganeira que tive. Meu primo falou (ele era mais velho, a turma toda o obedecia. Eu mais que os outros) "hoje à noite a gente vem aqui, ó" e apontou para a torre. Era pra subir no mais alto e ver a cidade lá de cima. Deu medo na mesma hora, antes mesmo de pisar no ferro da escada. Nadamos, voltamos à tardezinha. Oito horas ele saiu da casa dele e eu vi. Me escondi debaixo da cama. Cadê o Pedro, Tia Creuza? Não sei, não. Dev…

_contos noturnos [7/10]

7. O assalto: 2


Perto das nove horas da noite o silêncio só é perturbado pelo ruído de televisores ligados em barraco esparsos. A televisão substituiu a fé e é o ópio dos pobres. A escuridão dos becos torna o silêncio ainda mais opressor. Os olhos de Gilsinho demoraram para se adaptar à luz forte do lampião aceso no barraco de Manivela.

E aí, Vela? Cadê a Dona Ara?

Suas mãos cobriam a incidência bruta da luz.

Saiu. Ta no culto. Senta aí.

Sobre a mesa, um dos únicos móveis na cozinha, havia uma gororoba estranha.

Quer?

Porra, Manivela, vamo aê. A gente tem que seguir o combinado, cara.

Mas me deu fome, Gilsinho. Cacete, como vou roubar a casa do filho-da-puta com fome? A primeira porta que eu abrir vai ser a da geladeira.

Riram juntos. Saíram no escuro da favela a caminho do bairro chique, cada um com uma mochila nas costas.

Aí, te falo: se o filho-da-puta não tivesse no "X" eu ia matar ele hoje. Não se fala comigo como ele falou! Otário.

Aê, Gilsinho, seguinte: o cara ta fudido já; man…

_contos noturnos [6/10]

6. Favela em cores


Pedro Dado e Celsinho 38 conversavam sentados em um mureta da rua 16. Alí faziam ponto já há quase três meses. Bom tempo pra uma boca. Bebiam conhaque em uma garrafa que estava sobre o Agora do dia. O jornal tem mais sangue que um banco de sangue.

E aí, Netinho, vendeu muito hoje?

Que nada, Trêsoito, o trem tava devagar hoje. Dá um gole dessa coroti aí. Conhaque? E aí, Dado. Beleza?

Bebe aí.

No fim da tarde a rapaziada da comunidade costuma se reunir nos bares da área interna, longe do movimento de quem não é morador da favela. Alí na boca pouca gente pára. Só quem é da trutagem, ou seja, pouca gente. Netinho só fazia a correria para eles, mas isso foi antes. Ele tinha planos de viver até depois dos 20 anos e pra isso foi vender nos trens da cidade, um mercado que crescia a cada dia. No entanto não deixou de fazer a correria discretamente, era um bom aviãzinho. E o pessoal do movimento gostava dele.

Então, Neto, você viu que a quadra tá quase pronta? Mas não sei não. Aind…

_contos noturnos [5/10]

5. Viagem ao centro da terra


Há diversas maneiras de isolar socialmente as pessoas, de estratificar socialmente a massa. Coca-cola ou baré-cola é um tipo de estratificação. Rádio ou televisão na sala de casa é outro. A escola que os filhos freqüentam e com que tênis freqüentam. Na verdade, tudo pode ser estratificação social. Até mesmo bic ou mont-blanc. Ou se você tem um carro ou pega ônibus. Em algumas cidades, usar trem ou metrô faz diferença. Em São Paulo, andar de trem, simplesmente: a linha que margeia o rio Pinheiros é para classe média, com trens sofisticados que tocam jazz para os passageiros e mantém o ar-condicionado ligado o tempo todo. E todas as portas funcionam. As outras linhas de trem da cidade são para a ralé, sem música ou qualquer outro conforto.
E aí, Bundinha?
Freio cumprimenta o amigo. Um tapa e um soco. Só nas mãos. Na estação Vila Olímpia da CPTM eles estão como se em casa. Não há os perigos que assombram as outras linhas de trens urbanos da cidade. Como a que va…

_contos noturnos [4/10]

4. No bar, com morte


Era um lugar discreto, sem muita barulheira ou música alta. A cerveja sempre gelada e uns salgadinhos para comer. A pimenta era generosa no sabor e na ardência, pedia mais cerveja. As camisas de times de várzea do interior de SP (Bananais, São Carlos, Bauru, Araraquara, Itú, São Lourenço da Serra e outros) – inclusive a do time do bairro – davam ao bar um clima amistoso, de todas as torcidas. Depois das oito da noite a fumaça do churrasco tirava os bebedores de plantão de suas poltronas confortáveis e os levava às cadeiras de metal que se espalhavam pelo bar: o movimento começava a ficar bom, as mesas todas ocupadas, o falatório aumentava. Mulheres poucas apareciam, mas eram sempre pauta das conversas que somavam carros e futebol. Vez por outra um assunto sério em uma mesa mais isolada aparecia, mas ninguém percebia. Mas coisa rara. Era um lugar de descontração pura e besta, como a paulistada gosta: tem comida e cerveja gelada e nenhuma mulher para encher o saco. M…

_contos noturnos [3/10]

3. Saída


No galpão da Distribuidora Seta de Bebidas Ltda., à noitinha, há um movimento único: pessoas saindo, caminhões entrando. O portão é tomado pelo burburinho dos motores e o barulho dos empregados que saem aos tropeções para logo ganhar as ruas a caminho de casa, rumo ao descanso de colchões furados e comida fresca – a mesma da marmita de amanhã. Meia hora depois os funcionários de alto escalão – entenda-se todos aqueles que não têm trabalho braçal – saem, já com o caminho desobstruído, de volta para casa. Marcelo Mortica, gerente regional de vendas, um homem abastado, rico em adiposidades e poupança, costuma sair ainda mais tarde. Chegar cedo em casa significa ter que aturar a mulher por mais tempo.

Aquela terça-feira foi normal até as 19 horas. Marcelo Mortica saiu do escritório acelerado. Parou no banheiro, no corredor. Voltou, pegou o café pré-trânsito na máquina da copa de seu andar e seguiu direto para o estacionamento. Os elevadores estavam vazios. No hall, apenas os segura…

_contos noturnos [2/10]

2. Encontro de amigos


O dia raiou cedo. Já fazia um tremendo sol às oito horas. Quando deu meio dia a favela era uma festa de roupas, lençóis, toalhas, panos de prato, camisas de times, tudo limpo e estendido nos varais improvisados que permeiam os becos; festa de crianças brincando na rua com a água suja que escorre pelas vielas; festa de barro vermelho, fumaça de fogões a lenha. Incêndios são comuns nas diversas favelas de São Paulo.

E aí, Manivela!

Fala, meu velho! Como é que 'cê tá?

Manivela ganhou esse apelido ainda jovem. A mãe dele dizia que aquele era um morro de mulheres de coxas grossas. Afinal de contas, era um morro. E o manivela subia o morro atrás das garotas fazendo movimentos giratórios com a mão direita, como quem gira uma manivela, mesmo. Isso por todos os becos. E logo ficou conhecido como Manivela.

Na miúda, Manivela, na miúda. Tem três que tão do lado de lá, no X. Eu tava junto, liga?! Mas aí, nem fico abalado, tá ligado? Vacilaram.

E o que 'cê tá fazendo agora?

_contos noturnos [1/10]

1. O assalto

São Paulo, após certa hora da noite, ganha outro tipo de vida. Talvez pelas sombras que insistem em permear a luminosidade amarelada das ruas, talvez pela altura dos prédios que ficam acima dos postes tampando o céu e criando longos cânions urbanos sem vida – e luz – natural. O ambiente adequado para outros tipos de vida.

Às margens do rio Pinheiros muitos carros circulam sem parar. Um corredor viário que liga três regiões da cidade. A vida, às duas margens, ganha todo tipo de tons. Tons acinzentados de grandes complexos e ligações viárias, um labirinto monumental. Cores brilhantes de grandes prédios de diversas corporações nacionais e multinacionais que vêem na localização um privilégio e uma estratégia para se movimentar na cidade. Cores amarronzadas das diversas favelas que se espalham ao longo de todo o rio frente a frente – em margens opostas – com bairros ricos.

Já passava das dez da noite. Fazia calor na cidade, muitos carros e poucas pessoas nas ruas.

Continua andando…

_breve romance daquela mulher [cena psicológica]

Ela me assombra. É inegável. Assombra. Sua presença, seus passos, seu corpo. Assombra. Porra, é mulher do cara, sei disso. Olho daqui. Olho de novo. Ela olha, sei que olha. Está estampado. E isso me assombra. Lembro da primeira vez que a vi. Veio silenciosa na foto colada na parede. Na foto. Depois, casualmente ela apareceu de novo. Veio da boca do cara: minha mulher. O nome soou doce e concreto. Mas de repente flutuou em flatulências daquele idiota. Preferi perder essa imagem. Então ela veio novamente. Primeiro de costas, em um passo curto, urbano, leve. As pernas subiam bem formadas, a calça pouco sobrava acima do limite entre o fim da calcinha e o vácuo imaginário que me permiti fluir por alguns dias. A cintura apareceu feita para abraçar e apertar em carinhos tão puros que seriam até infantis. Vi então sua nuca mal coberta pelos cabelos e os pêlos que pediam: cheirem-me. Me assustou, assim, de costas. Parecia algo que aqui não poderia estar, não poderia existir. Parecia que aquela…