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Postagens

_a chuva [conto]

A chuva caía rala, molhando devagar as vagas plantas esquecidas no jardim. Lembrança. Anoto mentalmente: estou com saudades de alguém. Pela janela são visíveis as grades e os remédios de folhas largas já um pouco afogadas, esbranquiçadas pela água leve que insiste em entrar em minha memória. Domingo à tarde. Estávamos nus sobre um colchão fino que permitia nos espalharmos para além de seus limites sem sentir a transição. O enorme avarandado do sítio era infestado de plantas. No ofurô, uma hora antes, começamos algo que talvez não soubéramos ainda como terminaria. Cozinhamos nosso sexo na grande bacia oriental; nossa mestre-zen do prazer a longo prazo, ela costumava dizer. Era fim de março e, estranhamente, pouco chovera. Na floresta do alheamento meus sonhos eram permeados por uma sensação breve de umidade e pelos seios moles e quentes dela sobre meu braço. As nuances de cheiros passaram de sol e calor a uma apreensão da natureza, premeditação de chuva em abundância. Nos levantamos e, ...

_abandono [conto]

Nos abandonamos, finalmente, no dia em que ela soube que eu também sabia que precisávamos conversar. Na verdade, ela foi abandonada primeiro. Não era um jogo, era uma cena de um jogo. E a tática da melhor defesa vinha a calhar, enfim, para quem não sabe como se defender no cara-a-cara. Até que não pudemos mais resistir e nos entregamos suavemente a uma conversa leve e franca, intensamente a um sexo voraz e tenso, demoradamente a um sono perturbado e solitário. Primeiro sentamos na beira do mar. Olhamos as estrelas e ela gostava de discutir sobre a imensidão. Minha idéia de que éramos um vírus, embasado no fato de que somos a única espécie que não se adapta ao meio, a deixou sinceramente perturbada. Perdemos horas tentando explicar um para o outro que estávamos abertos a qualquer tipo de idéias. E ganhamos admiração. Era carnaval, pessoas comuns se tornavam exóticas. Não houve luxúria, mas houve paixão. Sem exotismos. Nos perdíamos pouco, ainda, no silêncio de nossos abraços. Ainda prec...
O fruto do furto é moral na intimidade não há vulgaridade. o furto do fruto nasceu mortal na intimidade não há indescência. *** ML, outubro 2006

_sustância [poema?]

relógios relógicos Substância do tempo instância do instante prismas numéricos ponteiros pesados apontam, persistem perfuram a massa insustentável da vida passando entrando saindo andando sombra solitária navegando terra adentro procurando um refúgio lunar dígitos despidos repetem repetem repetem concordam contínuos relógios, relógicos parados não mudam o tempo a nos comer ***

Explicação de Contos Noturnos

A idéia dos Contos Noturnos é bem simples: contar histórias curtas que se envolvem, se amarram ao longo das diversas tramas. Não há paralelismos nas histórias, tentei seguir uma certa linearidade temporal, mas me permite sair desse gesso sem o menor sentimento de culpa. Portanto se as histórias não forem lidas na seqüência (que eu, extremamente inteligente, publiquei ao contrário), talvez pareçam cenas desconexas, o que não deixam de ser, afinal de contas. No Iceberg de Hemingway vive tudo aquilo que não vemos além da cena, mas que sabemos estar ali. É isso. ML Agosto de 2006

_contos noturnos [10/10]

10. Alcagüete As paredes das casas se pintavam alternadamente de vermelho e branco. As caras dos moradores que se aboletaram nas janelas para ver o espetáculo também se alternavam coloridamente entre o sorriso e o espanto. Algumas pessoas já saiam de suas casas e se aglomeravam perto das viaturas paradas em frente à casa de Maurício sem mesmo sair de dentro de seus roupões e seus chinelos de meias quentes e alvas. Àquela hora da noite, em um bairro tão nobre, poucos não acordariam para ver o que poderia estar acontecendo. Sr. Pedro do Cáucaso, o sr. é acusado de latrocínio e está preso. Tem direito a um advogado. Se não puder pagar pelos serviços o Estado... A ladainha do policial era dita para a câmera de TV, não para o preso. Os jornais – sensacionalistas todos – não perderiam a chance de botar no ar a prisão do primo do Deputa Maurício de Lima dentro de sua casa, acusado de roubo seguido de homicídio. Pior, a situação da prisão era terminantemente pífia: um dos convidados do deputa...