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_abandono [conto]

Nos abandonamos, finalmente, no dia em que ela soube que eu também sabia que precisávamos conversar. Na verdade, ela foi abandonada primeiro. Não era um jogo, era uma cena de um jogo. E a tática da melhor defesa vinha a calhar, enfim, para quem não sabe como se defender no cara-a-cara. Até que não pudemos mais resistir e nos entregamos suavemente a uma conversa leve e franca, intensamente a um sexo voraz e tenso, demoradamente a um sono perturbado e solitário.

Primeiro sentamos na beira do mar. Olhamos as estrelas e ela gostava de discutir sobre a imensidão. Minha idéia de que éramos um vírus, embasado no fato de que somos a única espécie que não se adapta ao meio, a deixou sinceramente perturbada. Perdemos horas tentando explicar um para o outro que estávamos abertos a qualquer tipo de idéias. E ganhamos admiração. Era carnaval, pessoas comuns se tornavam exóticas. Não houve luxúria, mas houve paixão. Sem exotismos. Nos perdíamos pouco, ainda, no silêncio de nossos abraços. Ainda precisávamos da palavra para amparar nossos anseios, para dar sentido à nossa falta de perspectiva e a tudo aquilo que não podíamos palpar. Talvez fosse da maneira mais imprevisível, mas sempre foi da melhor maneira que nos entendemos: procuramos, um no outro, tudo que todas as outras pessoas não tinham. E nós tivéramos isso.

Íamos muito ao mar. Passávamos tanto tempo perto do mar que acreditávamos um dia ser possível morar no mar. Por vezes esticamos tanto o tempo perto do mar que os dias se tornavam vagos e preguiçosos, de um sol amarelado e pesado que nos forçava a andar devagar até chegar na areia. Dormíamos em silêncio, às vezes suados, às vezes lendo juntos o mesmo livro. Ela gostava do Gabo Márquez. Eu, de Marçal Aquino. Hoje a gente gosta das mesmas coisas. Nunca acordávamos antes do sol. Aliás, só eu gosto das horas da manhã. E quando achei que era hora de surfar, meu corpo já se vestira de uma idade que não permitia muitas peripécias. Mas ela compreendeu e me senti bem. Falei até que ela também gostaria de tentar. Ela nunca tentou.
Não lembro quando tivemos uma primeira briga. Acho que nunca tivemos uma briga, na verdade. Apenas nos desentendemos muito. Quem diria que hoje eu me sentiria tão suave – e triste ao mesmo tempo – por saber que não nos desentenderemos mais? Eu não diria. Mas o fato é que depois do primeiro desentendimento tivemos muitos outros. Dos sérios e dos babacas. A maioria deles eu deixo nessa segunda categoria. Fomos babacas por algum tempo. Eu poderia contar uma briga memorável que tivemos, mas não consigo lembrar de nenhuma. Briga e memorável são palavras que, em nosso caso, não cabem na mesma frase.

Houve um tempo em que nossa completude era tão magnânima que por vezes ouvi amigos dizerem casal perfeito. Eu acho isso até hoje. Somos um casal perfeito. Sabemos nos entender e nos desentender da mesma forma e com a mesma verdade. Sempre soubemos tirar a roupa um do outro na hora e do jeito certo. E se erramos o presente, acertamos a data (já aconteceu o contrário, também). Houve dias em que não queríamos nos ver, mas insistimos até passar essa desvontade. Sabemos que na distância mora a paz. E que a paz não é a única medida da felicidade. E principalmente, soubemos nos abandonar.

Eu a vi grávida – em meus devaneios de sofredor. Sua barriga estava linda e o vestido que ela usava, eu sei, fui eu que escolhi. Ela sorria e acariciava uma cadela. Eu não conhecia aquela cadela. Devia ser nova. Em seu sorriso, havia um misto de alegria e reflexão. No olhos, ainda verdes, havia uma certeza de felicidade. Eu não estava mais em sua vida e isso era bom. Das tantas promessas que fizemos, poucas cumprimos. Ao menos essa ela teve a coragem de fazer: ser feliz, se não comigo, com alguém especial. E, honestamente, ela merece alguém especial.

No dia em que conversamos, eu senti que parte do que havia de melhor em mim estava indo embora. E não podíamos mais voltar atrás, que coisa incrível. A sensação de erro brotava em cada molécula de meu corpo. E sabíamos que estávamos errando pra vida inteira. Eu nunca fiz juras de amor, ela também não. A gente sempre achou isso brega demais. Mas no dia de nossa conversa, eu sabia, ela sabia, estávamos prometendo silenciosamente que nos amaríamos sempre e seja onde for. Ela me perguntou se eu gostaria de conhecer os filhos dela. Eu disse silenciosamente que sim. E pedi a ela que em qualquer continente ou tempo que ela estivesse, me procurasse sempre que algo desse errado. Meu telefone até tem ficado ligado a noite toda. Talvez nenhuma dessas coisas aconteça. Talvez já estejam acontecendo. A questão é: nos abandonamos em barcos diferentes. Eu sei que não afundaremos, menos ainda sozinhos. Apenas teremos, desse dia em diante, tripulações diferentes em nossas vidas.


***

ML

Comentários

Ingrid - Gui disse…
Gosto deste, lindo conto!

Beijos...

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repetem
repetem
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***